Da (im)possibilidade de ouvir as cigarras
Um excerto de «A conjura contra o Verão», o último texto do magnífico
livro de Claudio Magris «A História Não Acabou» (p. 236/7):
«Esta
mobilização geral, esta política totalitária, que põe todos em fila e os
faz marchar segundo um itinerário obrigatório como nos passeios
escolares em visita aos museus, é uma autêntica conjura, animada por um
ódio inconsciente pelo indivíduo e pela
sua liberdade cigana, pelo seu direito de andar aos deus-dará, ao acaso
como os cães vadios no filme O Meu Tio de Tati. Mas esta inexorável
organização totalitária talvez seja também animada pela piedade pelos
homens e pelo bom propósito, comum às tiranias, de os proteger de si
mesmos. Precisamente porque o Verão é um rosto da vida verdadeira, esta
às vezes é insustentável; em certos dias de perfeita transparência, em
que parece ver-se o fundo da existência, as cores absolutas do mar
dizem-nos o que a vida poderia e deveria ser, a sua plenitude, o seu
significado, a sua intensidade, e põem-nos, portanto, cara a cara com a
nossa penosa verdade, com a falsidade, com a mutilação, com a miséria da
nossa existência.
Essa epifania, essa revelação podem ser
intoleráveis, fazer mal ao coração que se sente em relação a elas
bastante inferior; o Verão nu é também uma sarça ardente, que queima
quem se aproxima. E então é obra piedosa sufocar a promessa e a
exigência de vida verdadeira, apagar aquela sarça ardente com o primeiro
trapo à mão. O barulho que impede de ouvir as cigarras é uma boa droga
para a nossa vitalidade espezinhada; para quem está habituado ao ar
viciado, sair para o ar livre, como se sabe, pode ser perigoso.»