Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

A crise grega e as crianças

Não me lixem: quem lê uma notícia como esta e continua a dizer «tem de ser, tem de ser», não pode ser boa pessoa.

5 comentários:

sem-se-ver disse...

pois. tb fiquei de tal maneira abananada que fiz post logo pela manhã e falei nisto numa das minhas turmas (na outra nao vinha a proposito, naquela sim, pois dispus-me a esclarecer uma aluna - mas oh profª, o que são afinal agencias de rating?! - para dar uma aula prof martelo mas sem aquele riso parado irritante que ele faz no final de cada frase. tb nao precisei de ter uma pilha gigante de livros ao lado.)

Carlos Azevedo disse...

Sim, já vi o post no seu blogue. Aqui, alguns amigos professores também me contam histórias muito tristes que se passam com alunos seus. Mas, as proporções que a crise está a atingir na Grécia são aterradoras; e, temo, um mau prenúncio.

sem-se-ver disse...

exactamente.

Anónimo disse...

ABRUPTO em 1.5.12
……………
O resultado é um abismo psicológico cada vez maior que vai tornar Portugal numa sociedade ainda mais dual do que já era, duas partes que sentem diferente, agem diferente e vivem diferente. Numa sociedade já muito deslaçada e fragmentada, este abismo entre pessoas e grupos sociais vai coalescer os fragmentos, um para cada lado, mas não os vai aproximar. É caso dos "novos pobres", que se vão aproximar dos pobres, vão viver como eles, mas não são como eles.
Parte importante da chamada "classe média" está a soçobrar numa pobreza para a qual está longe de estar preparada e adaptada. Aliás, se há coisa para que não há "ajustamento", é a pobreza. Por isso me revolta considerar-se que o empobrecimento é apenas uma "mudança de hábitos", como se subitamente as pessoas escolhessem comer frango em vez de outra carne porque acreditam nas virtudes de poupar, ou como forma de punição por antes "viverem acima das suas posses". Não, as pessoas que passaram a comprar frango de aviário não estão a "adaptar-se", estão pura e simplesmente a escolher não o que desejam, mas o que podem comprar. Um dos dilemas morais dos nossos dias está na obrigação de recusar uma linguagem que impregna os actos de muita gente de culpa e submissão, redimida pela pobreza, como se houvesse qualquer valor moral na pura necessidade.
………….
É por isso que anda um Portugal lá fora desiludido, revoltado, deprimido, sem esperança, nem sentido, que, ou cai na mais completa anomia e submissão, ou esbraceja sem sentido contra tudo e contra todos. E a grande tragédia da política democrática é que essas pessoas estão sós, não contam com ninguém a não ser com os restos que ainda subsistem de genuína solidariedade social, e do que sobra da família, estilhaçada pela engenharia "fracturante" das últimas décadas. A elite dirigente, política e económica, sabe pouco desse sentimento de solidão, e, pior ainda, sabe cada vez menos, porque os modos de vida se separam todos os dias, entre o conforto do poder e a devastação da pobreza. O rasgão que isto está a fazer num Portugal já muito puído será muito difícil de remendar.

(Versão do Público de 28 de Abril de 2012.)

Carlos Azevedo disse...

Anónimo, obrigado pelo excerto. Desta vez, concordo inteiramente com José Pacheco Pereira.